Mostrar mensagens com a etiqueta Mia Couto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Mia Couto. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Nós somos a casa

.
.
- Tenho saudades da minha casa, lá na Itália.
- Também eu gostava de ter um lugarzinho meu, onde pudesse chegar e me aconchegar.
- Não tem, Ana?
- Não tenho? Não temos, todas nós, as mulheres.
- Como não?
- Vocês homens, vêm para casa. Nós somos a casa.
.

[Extracto de um diálogo entre o italiano e Deusqueira, in Mia Couto (2008 - 5ª ed.). O último voo do flamingo. Lisboa: Editorial Caminho.]
.
.

sábado, 22 de maio de 2010

Da minha janela

.
René Magritte, The False Mirror, 1928, 22" x 30".
.
.
... os ruídos da noite
trazem a sua esponja silenciosa
e sem luz e sem tinta
o meu sonho resigna
.
Longe
os homens afundam-se
com o caju que fermenta
e a onda da madrugada
demora-se de encontro
às rochas do tempo
.
.
Mia Couto, "Solidão", in Raiz de Orvalho e Outros Poemas.
.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Fui sabendo de mim

.
Noronha da Costa, She. Serigrafia, 65 x 54cm.
.
.
Fui sabendo de mim
por aquilo que perdia
.
pedaços que saíram de mim
com o mistério de serem poucos
e valerem só quando os perdia
.
fui ficando
por umbrais
aquém do passo
que nunca ousei
...
.
.
Mia Couto, "Fui sabendo de mim", in Raiz de Orvalho e Outros Poemas.
.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Apenas

.
Júlio Resende, Apenas Pintura 1, 2003. Óleo s/ tela, 150,1 x 150,1cm.
.
.
escrevo mediterrâneo
na serena voz do Índico
sou do norte
em coração do sul
na praia do oriente
sou areia náufraga
de nenhum mundo
hei-de
começar mais tarde
por ora
sou a pegada
do passo por acontecer.
.
.
Mia Couto, Poema mestiço.
.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Fim

.
Jean-Michel Basquiat, Cavalgando com a morte, 1988.
Acrílico e tinta de óleo s/ tela, 248,9 x 289,6cm.
.
.
morre-se nada
quando chega a vez
.
é só um solavanco
na estrada por onde já não vamos
.
morre-se tudo
quando não é o justo momento
.
e não é nunca
esse momento
.
.
Mia Couto, "Horário do fim", in Raiz de Orvalho e Outros Poemas.
.

domingo, 12 de julho de 2009

Eu mesmo

.
Noronha da Costa, S/ título. Óleo s/ tela, 73 x 92cm.
.
.
Preciso ser um outro
para ser eu mesmo
.
Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta
...
Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro
.
No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço
.
.
Mia Couto, "Identidade", in Raiz de Orvalho e Outros Poemas.
.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Língua

A língua que eu quero é essa que perde função e se torna carícia. O que me apronta é o simples gosto da palavra, o mesmo que a asa sente aquando o vôo. Meu desejo é desalisar a linguagem, colocando nela as quantas dimensões da Vida. E quantas são? Se a Vida tem, é idimensões? Assim, embarco nesse gozo de ver como a escrita e o mundo mutuamente se desobedecem.


Mia Couto, Perguntas à língua portuguesa. Disponível em: http://pintopc.home.cern.ch/pintopc/www/Africa/Couto_Mia/brincar_pt.htm

terça-feira, 3 de março de 2009

Caminhos

.
.
Começo a chorar
do que não finjo
porque me enamorei
de caminhos
por onde não fui
e regressei
sem ter nunca partido
...
.
Mia Couto, Ser que nunca fui, 1982.