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segunda-feira, 26 de abril de 2010

A bordo do meu barco

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Korneev Arkadiy, Adventure, 2003. Oil on canvas, 80 x 92cm.
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Gosto de uivar no vento com os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.
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A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.
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Sophia de Mello Breyner, Pirata.
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sexta-feira, 9 de abril de 2010

O respirar da vela

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Artur Bual, Menina,1994. Óleo s/ tela, 73 x 50cm.
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Sua beleza é total
Tem a nítida esquadria de um Mantegna
Porém como um Picasso de repente
Desloca o visual
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Seu torso lembra o respirar da vela
Seu corpo é solar e frontal
Sua beleza à força de ser bela
Promete mais do que prazer
Promete um mundo mais inteiro e mais real
Como pátria do ser
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Sophia de Mello Breyner Andresen, "Sua beleza", in O Nome das Coisas.
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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Reconstrução do mundo

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Anne Bachelier, Seated on the edge of the world, 2006.
Oil on canvas, 45" x 35".
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Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo
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Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo
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Sophia de Mello Breyner Andresen, "A forma justa", in O Nome das Coisas.
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segunda-feira, 15 de junho de 2009

Segredos

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Carlos Pinto, Arvoredo nocturno, 1998. Óleo s/ tela.
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As minhas mãos estão cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.
Ao longe por mim oiço chamando
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A voz das coisas que eu sei amar.
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E de novo caminho para o mar.
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Sophia de Mello Breyner Andresen, Hora.
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quarta-feira, 10 de junho de 2009

Pátria

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Paula Rêgo, Salazar a vomitar a pátria, 1960.
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A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.
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Sophia de Mello Breyner Andresen, Pirata.
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domingo, 26 de abril de 2009

Quando reacontecer Abril...

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Se acontecer
Que se prendam todas as flores
Antes da madrugada
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Sophia de Mello Breyner Andresen Quando reacontecer Abril.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Ausência

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Menez, Sem título, 1967. Acrílico sobre tela, 38x50cm
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Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.


Sophia de Mello Breyner Andresen, Ausência.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Os pássaros

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Ouve que estranhos pássaros de noite
Tenho defronte da janela:
Pássaros de gritos sobreagudos e selvagens
O peito cor de aurora, o bico roxo,
Falam-se de noite, trazem
Dos abismos da noite lenta e quieta
Palavras estridentes e cruéis.
Cravam no luar as suas garras
E a respiração do terror desce
Das suas asas pesadas.



Sophia de Mello Breyner Andresen, "Os pássaros", in Antologia.
Moraes Editores: Círculo de Poesia, 1975.