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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Não há outro caminho

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Amadeo de Souza-Cardoso, Entrada, 1917.
Óleo s/ tela 93,5 x 76cm.
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Nada
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nem o branco fogo do trigo
nem as agulhas cravadas na pupila dos pássaros
te dirão a palavra
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Não interrogues não perguntes
entre a razão e a turbulência da neve
não há diferença
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Não colecciones dejectos o teu destino és tu
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Despe-te
não há outro caminho
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Eugénio de Andrade, "Sobre o caminho", in Véspera da Água.
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terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Até amanhã

.Eduardo Luiz, Sem título, 1986. Óleo s/ tela, 60 x 73cm.
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Sei agora como nasceu a alegria,
como nasce o vento entre barcos de papel,
como nasce a água ou o amor
quando a juventude não é uma lágrima.
...
Falei de tudo quanto amei.
De coisas que te dou
para que tu as ames comigo:
a juventude, o vento e as areias.
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Eugénio de Andrade, "Até amanhã", in Até Amanhã.
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sábado, 23 de janeiro de 2010

Procuro-te

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Mário Eloy, Fuga, 1939. Óleo s/ tela, 100 x 80cm.
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Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.
...
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te.
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Eugénio de Andrade, "Procuro-te", in As Palavras Interditas.
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sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Desde a aurora

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David Tobey, Dark Garden, 2007. Acrylic, 48" x 36".
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Como um sol de polpa escura
para levar à boca,
eis as mãos:
procuram-te desde o chão
...
Sou eu, desde a aurora,
eu — a terra — que te procuro.
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Eugénio de Andrade, "Desde a aurora", in Obscuro Domínio.
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terça-feira, 11 de agosto de 2009

Amei

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Falei de tudo quanto amei.
De coisas que te dou
para que tu as ames comigo:
a juventude, o vento e as areias.
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Eugénio de Andrade, "Até amanhã", in Até Amanhã.
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domingo, 10 de maio de 2009

Sorriso

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Sorriso. Calligraphie Lassaad Metoui. Grenoble.
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Creio que foi o sorriso,
sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.
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Eugénio de Andrade, "O sorriso", in 30 Poemas.
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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Urgente

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Felicidade. Caligrafia chinesa.
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É urgente destruir certas palavras,
Ódio, solidão e crueldade,
Alguns lamentos,
Muitas espadas.
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É urgente inventar a alegria,
Multiplicar as searas,
É urgente descobrir rosas e rios
E manhãs claras.
...
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Eugénio de Andrade, "Urgentemente", in Antologia Breve.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Letras

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Maria Helena Vieira da Silva, Biblioteca, 1949.
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Os livros. A sua cálida,
terna, serena pele. Amorosa
companhia. Dispostos sempre
a partilhar o sol
das suas águas. Tão dóceis,
tão calados, tão leais,
tão luminosos na sua
branca e vegetal e cerrada
melancolia. Amados
como nenhuns outros companheiros
da alma. Tão musicais
no fluvial e transbordante
ardor de cada dia.
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Eugénio de Andrade, "Num exemplar das Geórgicas." in Ofício da Paciência .