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sábado, 12 de junho de 2010

Todo o cais é uma saudade de pedra

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Sarah Blank, Seafaring heart. Oil painting, 8" x 10".
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Ah, quem sabe, quem sabe,
Se não parti outrora, antes de mim,
Dum cais; se não deixei, navio ao sol
Oblíquo da madrugada,
Uma outra espécie de porto?
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Álvaro de Campos, "Ode Marítima", in Poemas.
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sábado, 27 de fevereiro de 2010

Nas mãos dos ventos

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Sarah Afonso, A Sereia, 1939. Óleo s/ tela, 103 x 86cm.
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No mar, no mar, no mar, no mar,
Eh! pôr no mar, ao vento, às vagas,
A minha vida!
Salgar de espuma arremessada pelos ventos
Meu paladar das grandes viagens.
Fustigar de água chicoteante as carnes da minha aventura,
Repassar de frios oceânicos os ossos da minha existência,
Flagelar, cortar, engelhar de ventos, de espumas, de sóis,
Meu ser ciclônico e atlântico,
Meus nervos postos como enxárcias,
Lira nas mãos dos ventos!
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Álvaro de Campos, "Ode Marítima", in Poemas.
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terça-feira, 24 de novembro de 2009

Coisas antagónicas

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Oliveira Tavares, Sem título. Serigrafia 50 x 70cm.
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Mas eu, em cuja alma se refletem
As forças todas do universo,
Em cuja reflexão emotiva e sacudida
Minuto a minuto, emoção a emoção,
Coisas antagônicas e absurdas se sucedem —
Eu o foco inútil de todas as realidades,
Eu o fantasma nascido de todas as sensações,
Eu o abstrato, eu o projetado no écran,
Eu a mulher legítima e triste do Conjunto
Eu sofro ser eu através disto tudo como ter sede sem ser de água.
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Álvaro de Campos, "Mas eu", in Poemas.
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domingo, 1 de novembro de 2009

Todos os lumes e luzes

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Autor desconhecido.
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Sou um formidável dinamismo obrigado ao equilíbrio
De estar dentro do meu corpo, de não transbordar da minh'alma.
Ruge, estoira, vence, quebra, estrondeia, sacode,
Freme, treme, espuma, venta, viola, explode,
Perde-te, transcende-te, circunda-te, vive-te, rompe e foge,
Sê com todo o meu corpo todo o universo e a vida,
Arde com todo o meu ser todos os lumes e luzes,
Risca com toda a minha alma todos os relâmpagos e fogos,
Sobrevive-me em minha vida em todas as direções!
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Álvaro de Campos, "A Melhor Maneira de Viajar é Sentir", in Poemas.
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domingo, 11 de outubro de 2009

Não cumprir um dever

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Ah a frescura na face de não cumprir um dever!
Faltar é positivamente estar no campo!
Que refúgio o não se poder ter confiança em nós!
Respiro melhor agora que passaram as horas dos encontros,
Faltei a todos, com uma deliberação do desleixo,
Fiquei esperando a vontade de ir para lá, que'eu saberia que não vinha.
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Álvaro de Campos, "A Frescura", in Poemas.
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domingo, 4 de outubro de 2009

Libertação

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Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
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Álvaro de Campos, "Tabacaria ", in Poemas.
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quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Epiderme da alma

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Súbita, uma angústia...
Ah, que angústia, que náusea do estômago à alma!
Que amigos que tenho tido!
Que vazias de tudo as cidades que tenho percorrido!
Que esterco metafísico os meus propósitos todos!
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Uma angústia,
Uma desconsolação da epiderme da alma,
Um deixar cair os braços ao sol-pôr do esforço...
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Álvaro de Campos, "Bicarbonato de Soda", in Poemas.
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sábado, 1 de agosto de 2009

Dá-me flores

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Marc Chagall, Lovers in the Lilacs, 1930. Oil on canvas.
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Dá-me lírios, lírios
E rosas também.
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também,
Crisântemos, dálias,
Violetas, e os girassóis
Acima de todas as flores...
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Álvaro de Campos, "Acordar", in Poemas.
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quinta-feira, 30 de julho de 2009

Adoro todas as coisas




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Eu adoro todas as coisas
E o meu coração é um albergue aberto toda a noite.
Tenho pela vida um interesse ávido
Que busca compreendê-la sentindo-a muito.
Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo,
Aos homens e às pedras, às almas e às máquinas,
Para aumentar com isso a minha personalidade.
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Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio
E a minha ambição era trazer o universo ao colo
Como uma criança a quem a ama beija.
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Álvaro de Campos, "Acordar", in Poemas.
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