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domingo, 1 de agosto de 2010

Talvez a vida seja simples

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Cy Twombly, Intitled VII - from Bacchaus Series, 2005.

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A cesura enerva-me no estômago
Cortei de manhã as pontas dos dedos mas sei já que
elas crescerão de novo a proteger as unhas.
Talvez a vida seja estranha,
talvez a vida seja simples,
talvez a vida seja outra vida.
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Nuno Júdice, "O Amor, um Dever de Passagem", in O Pavão Sonoro.
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sábado, 17 de abril de 2010

Metamorfose

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Trigueiro, Metamorfose. Técnica Mista, 120 x 90cm.
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Com as mãos, procura avaliar a qualidade da terra:
se as folhas lhe dão a consistência do ser vivo,
ou se a pedra que está por baixo, com os restos
fósseis da origem, rompe a sua unidade, e impede
o caminho às raízes.
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Os olhos não sabem, ainda, que a visão profunda
os dispensa. Por dentro, o olhar implica a noite;
e é da fusão das formas no negro último do céu,
para além da superfície das estrelas e das nebulosas
que essa verdade brilha com a sua exacta eternidade.
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Nuno Júdice, "Metafísica", in Meditação sobre Ruínas.
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sábado, 13 de fevereiro de 2010

Confesso

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Jean-Claude Gaugy, All Things Being Equal, 2006.
Mixed media on hand carved wood, 48" x 48".
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De um e outro lado do que sou,
da luz e da obscuridade,
do ouro e do pó,
ouço pedirem-me que escolha;
e deixe para trás a inquietação,
a dor,
um peso de não sei que ansiedade.
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Mas levo comigo tudo
o que recuso. Sinto
colar-se-me às costas
um resto de noite;
e não sei voltar-me
para a frente, onde
amanhece.
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Nuno Júdice, "Confissão", in Meditação sobre Ruínas.
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domingo, 23 de agosto de 2009

Não chores

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Autor desconhecido.
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Não chores o que te espera,
nem desças já pela margem
do rio derradeiro. Respira,
numa breve inspiração, o cheiro
da resina, nos bosques, e
o sopro húmido dos versos.
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Nuno Júdice, "A Voz que Nos Rasgou por Dentro ", in Meditação sobre Ruínas.
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sábado, 23 de maio de 2009

Raizes

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Pintomeira, Pintura XLIII, 2004.
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Ventos estáveis, gaivotas sobre
os molhes. A rebentação fixa-se
no ouvido. O som da água
nas fissuras da rocha, os gritos
que se perdem nas praias.
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Barcos ancorados
na floresta.
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Nuno Júdice, Mar.
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quinta-feira, 2 de abril de 2009

Solidão

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Edward Hopper, Rooms by the sea. 60 x 80 cm

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Um mar rodeia o mundo de quem está só. É
o mar sem ondas do fim do mundo. A sua água
é negra; o seu horizonte não existe. Desenho
os contornos desse mar com um lápis de
névoa. Apago, sobre a sua superfície, todos
os pássaros. [...] aves assustadas da solidão.
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Nuno Júdice, Solidão.
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segunda-feira, 16 de março de 2009

Rotina

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Edward Hopper, Morning Sun, 1952. 68 x 94 cm.


Ao abrir a janela do quarto para outras
janelas de outros quartos, ao veres a rua que desemboca
noutras ruas, e as pessoas que se cruzam, no início da
manhã, sem pensarem com quem se cruzam
em cada início de manhã, talvez te apeteça
voltar para dentro, onde ninguém te espera.
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Nuno Júdice, Rotina.