Mostrar mensagens com a etiqueta José Saramago. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta José Saramago. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 18 de junho de 2010

No silêncio mais fundo

.
.
No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressoante,
.
Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,
.
No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.
.
.
José Saramago, "Intimidade", in Os Poemas Possíveis.
.
.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Intimidade

.
Paula Rêgo, Self portrait in red, 1962.
[Óleo lapis de cera e colagem de papel s/ tela.]
.
.
No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressoante,
.
Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,
.
No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.
.
.
José Saramago, "Intimidade", in Os Poemas Possíveis.
.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Mísero adão

.
.
[...] e quanto à tua pessoa, adão, a terra ficou amaldiçoada por tua causa, e será com grande sacrifício que dela conseguirás tirar alimento durante toda a tua vida, só produzirá espinhos e cardos, e tu terás de comer a erva que cresce no campo, só à custa de muitas bagas de suor conseguirás arranjar o necessário para comer, até que um dia te venhas a transformar de novo em terra, pois dela foste formado, na verdade, mísero adão, tu és pó e ao pó um dia tornarás.
.
.
José Saramago (2009). Caim. Lisboa: Caminho, p. 22.
.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Pobre eva

.
.
[…] Fui à árvore, comi do fruto e levei-o a adão, que comeu também, Ficou-me aqui, disse adão, tocando na garganta, Muito bem, disse o senhor, já que assim o quiseram, assim o vão ter, a partir de agora acabou-se-lhes a boa vida, tu, eva, não só sofrerás todos os incómodos da gravi­dez, incluindo os enjoos, como parirás com dores, e não obstante sentirás atracção pelo teu homem, e ele mandará em ti, [...]
.
.
José Saramago (2009). Caim. Lisboa: Caminho, p.22.
.

sábado, 25 de julho de 2009

Este mundo não presta

.
Pedro Sarmento, Fim do mundo, 2001. Óleo s/ tela, 60 x 50cm.
.
.
Este mundo não presta, venha outro.
Já por tempo de mais aqui andamos
A fingir de razões suficientes.
Sejamos cães do cão: sabemos tudo
De morder os mais fracos, se mandamos,
E de lamber as mãos, se dependentes.
.
.
José Saramago, "Demissão", in Os Poemas Possíveis.
.