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quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Natal, e não Dezembro

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Entremos, apressados, friorentos,
Numa gruta, no bojo de um navio,
Num presépio, num prédio, num presídio,
No prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa, em qualquer sítio,
Porque esta noite chama-se Dezembro,
Porque sofremos, porque temos frio.

Entremos, despojados, mas entremos.
De mãos dadas talvez o fogo nasça,
Talvez seja Natal e não Dezembro,
Talvez universal a consoada.
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David Mourão-Ferreira, "Natal, e não Dezembro", in Cancioneiro do Natal.
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segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Paisagem

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Pedro Sarmento, Aquecimento Global, 2007. Óleo s/ tela, 90 x 90cm.
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Desejei-te pinheiro à beira-mar
para fixar o teu perfil exacto.
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Desejei-te encerrada num retrato
para poder-te contemplar.
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Desejei que tu fosses sombra e folhas
no limite sereno dessa praia.
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E desejei: «Que nada me distraia
dos horizontes que tu olhas!»
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Mas frágil e humano grão de areia
não me detive à tua sombra esguia.
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(Insatisfeito, um corpo rodopia
na solidão que te rodeia.)
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David Mourão-Ferreira, "Paisagem", in A Secreta Viagem.
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quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O teu silêncio

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Victor Bregeda, The silence. Giclee on Canvas, 18" x 24".
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Já o silêncio não é de oiro: é de cristal;
redoma de cristal este silêncio imposto.
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Excerto do poema de David Mourão-Ferreira, "Silêncio", in Tempestade de Verão.
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segunda-feira, 6 de julho de 2009

Podes partir

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Miró, Woman and bird in the moonlight, 1949.
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Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.
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Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
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Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.
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David Mourão-Ferreira, "Paraíso" , in Infinito Pessoal (1959-1962).
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